
Olá, apaixonados por relógios!
São 16h de uma tarde comum em Genebra. O telefone toca. Do outro lado da linha, Georges Golay, diretor-geral da Audemars Piguet, é direto: “Preciso de um relógio esportivo em aço, diferente de tudo que já existe, impermeável. Quero o design amanhã de manhã.” Do outro lado, um designer de 39 anos escuta, anota e desliga.
Naquela noite, Gérald Genta não dormiu. E quando o sol nasceu sobre os Alpes suíços, ele havia criado o Royal Oak — o relógio que salvaria a Audemars Piguet da crise, inventaria uma nova categoria inteira de luxo e, décadas depois, seria disputado por colecionadores a preços que desafiam qualquer lógica.
Mas essa era apenas uma das noites extraordinárias de um homem extraordinário. Porque Genta faria algo parecido — desta vez em cinco minutos, num guardanapo de restaurante — para a Patek Philippe. E o resultado seria o Nautilus. Dois dos relógios mais cobiçados do planeta. Um único homem. Uma mente sem igual.
Esta é a história de Gérald Genta — o designer chamado de “o Picasso dos relógios”, cujas linhas ainda dominam os pulsos mais refinados do mundo.
1. Genebra, 1931: O Nascimento de um Gênio Silencioso
Gérald Charles Genta nasceu em 1º de maio de 1931 em Genebra, filho de mãe suíça e pai italiano. Desde jovem, sua inclinação para a arte e o design era evidente — mas foi no universo da joalheria e relojoaria que encontrou sua linguagem definitiva. Formado ourives e joalheiro com diploma federal suíço, Genta não se encaixava no perfil do relojoeiro técnico e metódico que dominava a indústria. Ele era, acima de tudo, um artista.
Aos 23 anos, ainda desconhecido, foi contratado pela Universal Genève para uma missão incomum: criar um relógio para comemorar a primeira rota polar da companhia aérea escandinava SAS, que em 1954 inaugurou o voo de Copenhague a Los Angeles passando pelo Polo Norte. O relógio precisava ser resistente a campos magnéticos, variações extremas de temperatura e altitude — um desafio técnico e estético de primeira ordem.
O resultado foi o Polerouter — elegante, anti-magnético, pioneiro na utilização do micro-rotor automático. Não foi um produto qualquer: tornou-se um clássico de colecionador, e é até hoje considerado uma das peças mais belas da Universal Genève. Para um jovem de 23 anos, era uma declaração de intenções ao mundo.

“Ele vendia seus designs a 10 francos suíços cada, indo de manufatura em manufatura com uma pasta de esboços debaixo do braço.” — Évelyne Genta, esposa do designer
Na virada da década, a Omega o chamou para renovar sua linha Constellation — uma das coleções mais importantes da marca. Genta entregou um redesenho que a empresa adotaria por anos. Foi aí que o mundo começou a perceber: aquele jovem de Genebra era diferente de tudo que havia surgido antes.
2. A Noite que Mudou a Relojoaria: O Royal Oak
Para entender o que Genta fez em 1970, é preciso compreender o contexto. A indústria relojoeira suíça vivia uma de suas maiores crises — a chamada Crise do Quartzo. O Japão havia desenvolvido relógios a quartzo baratos, precisos e confiáveis. As manufaturas suíças, orgulhosas de seus mecanismos mecânicos complexos e caros, viam suas vendas desmoronar. A questão que pairava sobre Genebra era existencial: para que servem relógios mecânicos num mundo de quartzo?
A Audemars Piguet — fundada em 1875 no vale de Le Brassus — sentia a pressão. Seu diretor Georges Golay decidiu apostar numa ideia radical: um relógio esportivo de luxo em aço inoxidável, um material até então considerado indigno de uma peça premium. A missão foi entregue a Genta com um prazo impossível: uma única noite.

Sua fonte de inspiração? Os capacetes de mergulhadores que vira em Genebra — equipamentos com um anel octogonal fixado por oito parafusos expostos, desenhados para suportar a pressão das profundezas. Ele transferiu essa geometria industrial para a relojoaria: o resultado foi uma caixa com biselo octogonal preso por oito parafusos visíveis, uma pulseira integrada que fluía diretamente da caixa, e um mostrador texturizado em padrão Tapisserie. Nada menos do que revolucionário.
“Às 16h, o Sr. Golay me ligou: ‘Preciso de um relógio de aço esportivo que nunca foi feito antes. Quero o design amanhã de manhã.’ Desenhei durante a noite. Minha ideia foi replicar o sistema do capacete de mergulho na caixa do relógio — com os oito parafusos e a junta visível na parte exterior.” — Gérald Genta
Quando apresentado na Feira de Basileia de 1972, o Royal Oak provocou choque. Custava 3.300 francos suíços — cerca de dez vezes o preço de um Rolex Submariner da época. Em aço inoxidável. As críticas foram implacáveis. Mas as vendas vieram. E com elas, uma nova categoria nasceu: o relógio esportivo de luxo.
Até o fim de sua vida, Genta se referia ao Royal Oak como “a obra-prima da minha carreira”. Hoje, um Royal Oak original de 1972 Série A pode ser encontrado em leilões por mais de US$ 67.000 — uma valorização de mais de 640% em meio século.
3. Cinco Minutos Num Guardanapo: O Nautilus
O sucesso do Royal Oak não passou despercebido pela Patek Philippe. Uma manufatura de pedigree inigualável — fundada em 1839, famosa por seus relógios de complicações preciosas em ouro —, a Patek observava com interesse crescente o fenômeno do aço esportivo de luxo que Genta havia criado.
A história do que aconteceu a seguir tornou-se lenda. Segundo o próprio Genta, executivos da Patek Philippe o encontraram num restaurante em Basileia. Enquanto conversavam sobre a possibilidade de criar um relógio esportivo para a marca, Genta pegou um guardanapo e, em cinco minutos, esboçou o que se tornaria o Nautilus. Desta vez, a inspiração veio dos vigias dos navios transatlânticos — as janelas redondas com “orelhas” laterais que representavam as dobradiças. A peça homenageava o submarino do Capitão Nemo, personagem do romance 20.000 Léguas Submarinas de Júlio Verne.

Lançado em 1976 como referência 3700, o Nautilus trouxe uma estética diferente do Royal Oak: onde o AP era angular e industrial, o Nautilus era mais arredondado e suave, equilibrando esporte e elegância com precisão cirúrgica. Também em aço, também com pulseira integrada, também controverso no lançamento — e também destinado à imortalidade.
Hoje, o Nautilus é o relógio mais aguardado nas listas de espera das boutiques Patek Philippe ao redor do mundo. Versões em aço chegam a triplicar seu valor no mercado secundário. Dois ícones. A mesma mão. A mesma genialidade.
4. Além dos Dois Ícones: O Universo Genta
Seria injusto reduzir Gérald Genta a dois relógios — por mais monumentais que sejam. Durante mais de cinco décadas de carreira, ele produziu designs para praticamente todas as grandes casas relojoeiras e de joalheria do mundo.
IWC Ingenieur SL (1976): Comissionado também durante a Crise do Quartzo, o Ingenieur redesenhado por Genta trouxe o mesmo DNA integrado e esportivo, com um biselo de cinco entalhes que ecoava a linguagem visual do Royal Oak. Inicialmente de vendas lentas, tornou-se peça de colecionador nas décadas seguintes.
Bulgari Bulgari (1977): Quando a joalheria italiana Bvlgari quis entrar definitivamente no universo da relojoaria, contratou Genta. Ele se inspirou nas moedas do Império Romano — marcadas duas vezes com o nome do imperador — para criar um biselo com a dupla inscrição “BVLGARI BVLGARI”. O relógio tornou-se assinatura da marca e ainda está em produção hoje.
Cartier Pasha (1985): A Cartier queria um relógio esportivo-elegante para surfar a onda que o próprio Genta havia criado. Ele respondeu com o Pasha: caixa redonda com numerais arábicos oversized, tampa protetora na coroa encadeada à caixa e uma personalidade que mesclava o charme francês com a robustez dos esportivos de luxo.
King Midas para a Rolex (anos 1960): Poucos sabem que Genta também trabalhou para a Rolex. O King Midas — um relógio ousado em ouro sólido inspirado na arquitetura do Partenon grego — foi sua contribuição para a maior manufatura do mundo, e já revelava, antes do Royal Oak, a visão arquitetônica que definiria toda a sua carreira.
5. O Maestro e Sua Própria Voz
Em 1969, cansado de criar obras-primas que levavam o nome de outros, Genta fundou sua própria manufatura. A marca Gérald Genta produzia peças únicas de extraordinária complexidade — tourbillons, carrilhões, perpétuos — para uma clientela seleta que incluía o Príncipe Rainier de Mônaco, o Rei Juan Carlos da Espanha, o Rei Fahd da Arábia Saudita e a Rainha-Mãe da Inglaterra.
Sua criação mais celebrada neste período foi a Grande Sonnerie — um relógio de pulso que reproduzia exatamente as badaladas do Big Ben, com quatro gongos e repetição dos quartos de hora. Um único exemplar levava até cinco anos para ser completado, inteiramente desenhado e supervisionado pelo próprio Genta. Preço: mais de US$ 800.000. Em 1994, criou a Grande Sonnerie Rétrograde, considerada à época o relógio de pulso mais complicado do mundo, avaliado em aproximadamente US$ 2 milhões.

Em 2000, a Bulgari adquiriu a marca Gérald Genta. Sem poder usar seu próprio nome, o designer criou uma nova empresa chamada Gerald Charles — utilizando seu nome do meio — e continuou criando até o fim da vida. Ao longo de toda a carreira, Genta deixou registrado que havia concebido mais de 100.000 designs de relógios. Quando faleceu em 17 de agosto de 2011, aos 80 anos, deixou para sua esposa Évelyne mais de 3.200 desenhos inéditos.
Um homem que, segundo relatos de pessoas próximas, nunca gostou de usar relógios — passou a vida inteira desenhando os mais belos do mundo.
O Traço que o Tempo Não Apaga
Há algo profundamente poético na trajetória de Gérald Genta. Um homem que vendia designs a 10 francos cada nas portas das manufaturas tornou-se o arquiteto silencioso das peças mais valiosas do planeta. Um artista cujo nome raramente aparece nos mostradores que ele criou, mas cujas linhas são imediatamente reconhecíveis por qualquer olho treinado.
O Royal Oak e o Nautilus não são apenas relógios. São a prova de que design autêntico transcende o tempo — e que o verdadeiro luxo não está no material, mas na ideia. Genta foi o primeiro a entender que o aço podia ser tão precioso quanto o ouro, se a mão que o moldasse fosse genial o suficiente.
Quando um cliente traz à Watch Time um Royal Oak ou um Nautilus para revisão, ele não está trazendo apenas um mecanismo para regular ou uma pulseira para ajustar. Está trazendo um pedaço de história — um fragmento da visão de um homem que, numa noite de inverno em Genebra, imaginou algo que o mundo ainda não tinha visto.
É com essa consciência que a Watch Time trata cada peça que passa por nossas mãos. A manutenção de um grande relógio não é apenas técnica — é um ato de respeito à arte de quem o concebeu.
Genta provou que genialidade não precisa de uma noite inteira. Às vezes, bastam cinco minutos e um guardanapo.
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